O Jornal Nacional apresenta, nesta semana, uma série especial de reportagens sobre o cerrado. Hoje os repórteres Marcelo Canellas e Lúcio Alves mostram como cientistas brasileiros transformaram o solo pouco fértil em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo. Mas, sem controle, essa boa notícia pode se transformar em um perigo.

03/08/2004

Terra chucra, ninguém queria. Cerrado só servia para fazer poeira. "É terra que não serve para nada. É terra de fazer longe, que só serve para aumentara distância entre duas cidades", conta o pesquisador Carlos Roberto Spehar, da Embrapa.

Quem insistiu, quebrou a cara. "A produtividade chegava a ser nula, zero", observa o pesquisador Djalma Gomes de Souza, da Embrapa.

A composição química do solo era um desastre. "Ele é ácido e pobre em todos os nutrientes", explica Carlos Roberto Spehar.

Mas alguém começou a enxergar vantagens. "Os cerrados eram grandes extensões de terra plana. Portanto, seriam de fácil mecanização", diz o pesquisador Dimas Vital Resqui, da Embrapa.

Durante seis meses, uma fartura de chuva. "É água mais do que suficiente para produzir duas, três culturas em um ano", lembra Dimas Vital Resqui.

Foi então que a Embrapa Cerrados resolveu destrinchar aqueles torrões. Os pesquisadores botaram na cabeça que dava para plantar no lugar. "Nós não tínhamos noção do que nós estávamos iniciando. Nós não sabíamos que ia chegar a esse acúmulo de conhecimento", garante Djalma Gomes de Souza.

Os cientistas se esforçavam para entender o cerrado, mas o governo não quis esperar. Na década de 70, o regime militar incentivou a ocupação da região. Milhares de agricultores chegavam do sul plantando da maneira que sabiam.

"As pessoas vinham para cá e tinham que produzir. E muitas vezes não tinham uma tecnologia acabada ainda e eles de qualquer forma produziam", conta o pesquisador Dimas Vital Resqui.

O dano ambiental está aí até hoje. "A ocupação foi violenta em termos de quase dez milhões de hectares ocupados em uma década", afirma Dimas.

Mas logo a pesquisa deu frutos. Lavouras viraram laboratórios científicos."Já foram produzidas aqui nove teses, uma de doutorado e oito de mestrado. O conhecimento gerado aqui é simplesmente fabuloso", comemora o pesquisador Djalma Gomes de Souza.

As técnicas de plantio e de correção do solo se espalharam. Na guerra biológica contra as pragas, os cientistas usaram vírus e fungos para matar insetos e a engenharia genética criou quase 400 variedades de soja adaptadas ao cerrado. Quem apostou, se deu bem.

"Para cada real investido em fertilizante você tem em torno de R$ 6 de volta, de retorno", calcula o agricultor Lisandro de Quadros.

Lisandro saiu do Rio Grande para plantar algodão no cerrado baiano. "Cheguei aqui, olhei para essa areia e achei que nada dava. Mas, pelo contrário, está surpreendendo a gente aqui", conta ele.

Dá algodão e dá grão de todo tipo. Dá até demais. "Tanto que nem coube nos armazéns. Tivemos que jogar um pouco no chão", diz Lisandro.

Os agricultores apostam nas virtudes da última fronteira agrícola do planeta. "Os Estados Unidos não têm mais áreas agricultáveis. A China tem muitos desertos, assim como a Austrália. Nós temos ainda uma fronteira agrícola que o mundo não tem", observa o pesquisador Dimas Vital Resqui.

Mas será que vale a pena cultivar o cerrado que ainda resta? A própria ciência recomenda cautela. O cerrado é como se fosse o telhado do Brasil. Por estar no planalto, espraia toda a água da chuva para outras regiões.

"É como se fosse um guarda-chuva, distribuindo água para todos os cantos do continente sul-americano. Os grandes rios do continente sul-americano ou têm suas nascentes ou seus grandes alimentadores situados na área do cerrado", explica o pesquisador Altair Sales Barbosa, da UCG.

A vegetação do cerrado funciona como uma esponja, absorvendo a chuva e empurrando a água para três imensos lençóis subterrâneos, os aqüíferos. É deles que saem as milhares de nascentes que alimentam os rios. Sem as árvores do cerrado, a terra nua da lavoura não absorve mais a umidade.

"Retirou-se a cobertura vegetal natural, a água da chuva cai e não infiltra como deveria infiltrar e conseqüentemente não alimenta os aqüíferos como deveria alimentar. E a cada ano que passa, esses aqüíferos começam a secar", alerta Altair.

O córrego da Lapinha ocupava toda a extensão do leito. Ele nascia dez quilômetros acima, no alto da Serra do Barbosa. E a correnteza era tão violenta que arrastava todas as pedras. De dez anos para cá, o córrego foi minguando, minguando, até secar completamente.

Um levantamento da Universidade Católica de Goiás mostra que, na última década, mas de 300 pequenos rios secaram na região do cerrado. "Se o manejo ambiental continuar da forma como está, em um tempo muito mais curto, os grandes rios nossos vão começar a secar. A primeira conseqüência é a extinção quase total da agricultura, por exemplo", afirma o pesquisador
Altair Sales Barbosa.

A própria ciência tem o contra-veneno. Existem técnicas que aumentam a produtividade sem derrubar um metro de cerrado. Basta querer. "Já temos todas essas tecnologias preparadas e prontas em termos de correção e de adubação", garante o pesquisador.

Sem contar a imensa área de pastagens degradadas que podem ser recuperadas para a agricultura. "Em 50 milhões de hectares nós podemos fazer isso. É uma fábula", afirma Altair.

Se cometermos os erros do passado, não haverá reparação. "Não é como a Mata Atlântica, que você pode reconstituir, Não é como a Amazônia, que você pode reconstituir. O cerrado, uma vez degradado em todos os seus ambientes, não se recupera jamais", diz.

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