Domingo/Segunda, 8 e 9 de Agosto de 2004.

Gringos invadem o cerrado


JOSÉ MEIRELLES PASSOS
Especial para a Folha

Agricultores americanos, e até mesmo investidores que jamais viram um trator ou colheitadeira de perto, estão descobrindo uma nova e próspera fronteira agrícola bem longe dos Estados Unidos: o cerrado brasileiro. Eles estão chegando em grupos cada vez maiores para inspecionar as terras, avaliar a infra-estrutura, e conhecer os meandros burocráticos, em busca de rendimentos seguros que, segundo seus cálculos, superam os que conseguem obter, hoje, em seu próprio país.
"Há cinco anos levo gente para comprar terras no Brasil e nunca vi um interesse tão grande como nos últimos 12 meses. Este ano, por exemplo, estou promovendo quatro excursões de gente interessada em investir no setor agrícola brasileiro", disse Philip F. Warnken, presidente e executivo-chefe da AgBrazil Inc., com sede no Missouri.
Ela faz a ponte entre os investidores americanos e os donos de terra no Brasil, além de administrar as lavouras adquiridas pelos estrangeiros. Só este ano, dois grupos estiveram no país, em janeiro e março, guiados por Warnken, e fizeram negócios. Um terceiro, formado por 28 pessoas, chega em meados de agosto. Em novembro haverá outro grupo.
Segundo Warnken, as excursões de compra de terra foram tão bem-sucedidas que acabaram atraindo canadenses, alemães e suíços:
"Tudo começou com agricultores dos EUA. Mas agora também há europeus interessados, e boa parte dos grupos é formada por investidores que nem são do ramo: dentistas, advogados, agentes financeiros. O que chama a atenção é o retorno do dinheiro investido no Brasil. O país está se consolidando como o maior exportador agrícola mundial, além de ter enorme mercado interno".
Os americanos já compraram milhões de hectares no país. O presidente da AgBrazil, porém, não revela dados dos negócios feitos por seus clientes, a maior parte nos municípios de Luiz Eduardo Magalhães e Barreiras, no Oeste da Bahia. Ele não diz o total da área adquirida nem o capital investido.
"Isso é um segredo profissional. Não posso falar a respeito, porque a competição é cada vez maior nessa área", afirmou Warnken, que é doutor em economia agrícola pela Universidade de Michigan e viveu no Brasil nos anos 60.
Mas um de seus concorrentes, a Brazil Iowa Farms LLC, há pouco fez questão de alardear nos EUA a compra de 2,8 milhões de hectares (28 mil quilômetros quadrados, o que equivale a praticamente 5% do estado da Bahia) também na área de Luiz Eduardo Magalhães (BA). Essa firma, que também promove excursões de agricultores e investidores em busca de terras no Brasil, reuniu US$ 13 milhões de 250 americanos e canadenses para investir em cultivos de algodão, soja e milho e no processamento de algodão naquela região da Bahia.
A empresa, sediada em Iowa, espera assumir no próximo dia 31 a área que adquiriu e mudar seu nome de Fazenda Ontário para Fazenda Iowa. Segundo o presidente da firma, David Kruse, há planos de aquisição de mais terras e de agroindústrias no país, além de investimentos na pecuária.
"O custo do capital no Brasil é elevado, mas o retorno gerado pela agricultura também é alto e compensa. No nosso caso, há a vantagem de combinar os baixos custos do capital nos EUA com a dinâmica da economia agrícola do Brasil. Com isso, pretendemos criar o mais eficiente negócio desse ramo no continente", disse Krause, cujo filho, Matthew, vai morar no Brasil e coordenar o projeto.
A primeira visita de Krause ao país, em 2001, bastou para que ele encontrasse um bom filão de negócios: criar um investimento para que os americanos tivessem acesso ao agronegócio no Brasil. Paul Zimmerman, vice-presidente da Brazil Iowa Farms, que visitou o o país com um grupo de investidores em março, também se entusiasmou:
"Quando pensamos na agricultura do Brasil, pensamos em soja. Mas a Bahia tem muitas outras oportunidades, como café, algodão, frutas, gado. Às vezes nós, fazendeiros americanos, pensamos que não há ninguém como nós no mundo. Mas há muitos bons produtores no Brasil. Uma vez que eles resolvam os seus problemas, serão muito competitivos".

Baixo custo é o principal atrativo


Eles são atraídos, primeiro, pelo baixo custo da terra e da mão-de-obra no Brasil. Os investidores americanos ficam ainda mais inclinados a aplicar no país quando inserem nos cálculos a alta produtividade da agricultura nacional - por causa da qualidade do solo e da modernidade da agroindústria brasileira. A decisão final vem com a constatação de que a política agrícola dos EUA é insustentável.
Quem participa das excursões ao Brasil promovida pela Brazil Iowa Farms recebe um documento com dados do mais recente estudo rural americano, mostrando que os subsídios agrícolas nos EUA chegaram ao equivalente a 43% da renda líquida do setor nos últimos anos. Isso, na prática, significa que sem essa ajuda muitos produtores seriam incapazes sequer pagarem suas dívidas.
"Nós estamos preocupados com a sustentabilidade dos atuais valores das terras aráveis nos EUA, que têm sido capitalizadas por subsídios governamentais. Caso esses subsídios sejam reduzidos ou eliminados, muitos produtores serão incapazes de continuar trabalhando. Nós acreditamos que os brasileiros estão operando de forma lucrativa com os preços do mercado mundial, sem o nível de subsídios governamentais recebidos pelos produtores americanos", diz um trecho do documento.
Por sua vez, a AgBrazil Inc. informa aos seus potenciais clientes que as terras do cerrado são as mais baratas e, ao mesmo tempo, mais produtivas de todo o Hemisfério Ocidental. O motivo do baixo custo, diz um documento da firma, é que há mais terras do que dinheiro suficiente no país para adquirí-las e explorá-las. "Não há subsídios governamentais, os juros são altos, o crédito é limitado ou não disponível", diz um trecho, chamando a atenção ainda para o fato de que os próprios investidores brasileiros acabam não se interessando tanto, porque exigem um retorno mais elevado que os americanos. "A inflação agora está sob controle, mas investimentos que não têm um potencial de retorno de pelo menos 25% por ano são rejeitados por fazendeiros e investidores brasileiros", diz a AgBrazil.
A imensidão do território disponível é também um grande atrativo. Só o cerrado brasileiro abrange cerca de 207 milhões de hectares, dos quais apenas 50 milhões estão sendo explorados economicamente. Sem contar que, enquanto um hectare nos EUA sai por cerca de US$ 3 mil, na Bahia, por exemplo, pode-se encontrar uma área desse tamanho por apenas US$ 100. Outras regiões do interior baiano, assim como áreas no Piauí, no Maranhão e em Tocantins, também estão na mira dos investidores estrangeiros.

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